Estamos preparados para o retorno?

Estamos preparados para a retomada de antigas rotinas interrompidas pelo novo coronavírus? Imagem: ambermb / Pixabay.

Desde o início da pandemia de Covid-19, uma grande preocupação entre psicólogos e psiquiatras é que as novas rotinas trazidas pelo vírus, como o distanciamento social, diminuição de renda e possíveis perdas familiares prejudiquem a saúde mental da população e causem a elevação do número de casos de depressão, ansiedade e até suicídio.

Em julho de 2020, produzimos uma reportagem sobre como o isolamento social e a pandemia podem afetar nossa saúde mental. Atualmente, em decorrência do avanço na vacinação, vemos estados e municípios flexibilizando cada vez mais as medidas restritivas. Contudo, para que essa flexibilização seja feita de maneira segura, seria preciso observar indicadores essenciais como o índice de ocupação de leitos hospitalares, bem como a queda do número de casos, o que não está acontecendo na maioria das cidades. Com mais esses impactos em nossa rotina, surge o questionamento, como está a saúde mental da população brasileira no período atual da pandemia?

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Aline Cardoso Siqueira, psicóloga, docente dos Programas de Pós-graduação em Ciências da Saúde e Psicologia da UFSM e colaboradora no projeto COVIDPsiq, explica que uma pandemia é um evento estressor, que impacta a rotina, a forma como os indivíduos enxergam a vida, em maior ou menor intensidade. Nem todos irão sentir o mesmo efeito nessas alterações, pessoas com fragilidades prévias têm uma piora mais ampliada e prolongada que indivíduos que não apresentavam problemas de saúde mental.

“Em primeira análise, se observa o estresse sendo abrangente, atingindo a todos, e ao longo da pandemia, enquanto alguns indivíduos pioraram, outros conseguiram se adaptar às novas medidas e manter certo equilíbrio”, afirma a docente.

No início da pandemia e do isolamento social, um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado pela revista The Lancet mostrou que os casos de depressão praticamente dobraram entre os brasileiros entrevistados, enquanto casos de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80% entre os meses de março e abril de 2020.

Já em março de 2021, uma pesquisa da Universidade de Ohio (EUA), disponível no VivaBem UOL, apontou que o Brasil liderava índices de ansiedade e depressão durante a pandemia, quando comparado a outras 10 nações. Ainda na pesquisa, a conclusão dos cientistas é que as populações que mais sofrem emocionalmente são as mais infectadas pelo vírus (por milhão de habitantes) e com menor esperança de controle da pandemia, como é o caso do Brasil.

A pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), COVIDPsiq, liderada pelo professor doutor Vitor Crestani Calegaro, mostrou que mais da metade dos participantes teve sintomas de depressão. A conclusão dos pesquisadores é semelhante a de outros estudos (iniciais ou atuais) já citados: existe um aumento de sintomas mentais com o agravamento da pandemia. 

Em entrevista para a RBS TV disponível G1 RS, o coordenador do projeto ainda explica que “a resiliência é a capacidade de, após passar por um evento traumático, conseguir se adaptar a essa situação. Vai desde cuidar a saúde física, praticar exercícios, relaxar, aproximar-se de pessoas que são significativas”.

Mike Akama Mazurek, comunicador pós-graduado em psicologia analítica pelo Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa e pesquisador de saúde mental e sua relação com as tecnologias, explica que em eventos estressores, como o ínicio de uma pandemia, precisamos de uma adaptação saudável, “é necessário se adaptar ao nosso novo ambiente e rotina. Se isso não acontece, ou você tenta mudar de ambiente – o que é inviável no momento em que estamos vivendo, ou você adoece”. Há muita resistência a uma nova e desconhecida realidade, juntamente com muitos pensamentos e frustrações decorrentes da ansiedade e do luto, completa.

Sobre o processo de resiliência, o pesquisador explica que houve uma transposição das relações do mundo físico para o virtual, quando muitas pessoas passaram a ver a internet, redes sociais e jogos como refúgio. “Houve um ‘boom’ de redes sociais e acredito que isso irá se manter mesmo após o fim da pandemia, mas ainda é necessário buscar formas de reaver nossa socialização física. É importante haver essas relações virtuais, mas nada consegue substituir o toque e o calor humano que tanto perdemos nesse tempo de isolamento social”, completa o especialista.

Estamos preparados para um possível retorno à “vida normal”?

A flexibilização dos cuidados pode nos levar a uma falsa sensação de segurança. Imagem: serhii_bobyk / Freepik.

Com o afrouxamento das medidas restritivas cada vez mais recorrentes em diversas cidades e estados do país, nos questionamos se a pandemia está perto de acabar, e como será a retomada de antigas rotinas interrompidas pelo novo coronavírus. Porém, especialistas como Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede Análise Covid-19, alertam que a flexibilização dos cuidados pode nos levar a uma falsa sensação de segurança e, por consequência, o aumento da transmissão do vírus.

Em entrevista coletiva disponível no R7, Isaac explica que “muitas pessoas se baseiam no que o governo está fazendo: se restringiu, quer dizer que está ruim; se liberou, é porque está bom. Mas o que estamos vendo é que não tem uma correlação direta entre as medidas e o andamento efetivo da pandemia, às vezes as flexibilizações ocorrem por pressões políticas ou econômicas”.

A especialista Aline Cardoso Siqueira esclarece que certo retorno já está acontecendo do ponto de vista psicológico. “Algumas pessoas estão se sentindo mais seguras com o avanço da vacinação e flexibilização de medidas restritivas e extremas”, conta. Essas amenizações estão ocorrendo vagarosamente, como atividades mais rotineiras e normais que, aos poucos, estão voltando. Do ponto de vista clínico e das Universidades, esse possível retorno às atividades presenciais impacta novamente: “é necessário uma readaptação, uma nova mudança de hábitos de vida, de contexto, de exercício de papéis sociais. A insegurança e a impossibilidade de prever situações rotineiras, traz um efeito nocivo para a saúde mental”, completa.

Dessa forma, enquanto ainda houver grandes números de casos e mortes, não conseguiremos voltar à normalidade. Mas, conforme os casos forem estabilizando e atingirmos um percentual suficiente na vacinação, poderemos começar a retomar nossas rotinas antigas. Nesse ponto, o comunicador Mike Akama esclarece que nessa nova adaptação, a resistência, o medo e a ansiedade de mais mudanças, podem existir.

Para Aline, “a questão do preparo do pré-retorno vai muito da predisposição psíquica para se adaptar a uma nova realidade, o indivíduo precisa estar amparado da satisfação de necessidades básicas. Teremos que ficar atentos a uma parcela muito grande da população brasileira, que perdeu muitos entes queridos, perdeu pessoas que sustentavam as famílias, perdeu estabilidade financeira, perdeu esperança no futuro”.

Essas são situações que precisam ser olhadas com compaixão e com atenção técnica e profissional, para que essas pessoas consigam o mínimo para seu bem-estar e para se preparar de maneira saudável para o retorno. “É um trabalho muito prolongado e intenso que iremos enfrentar nos próximos anos para que possamos recuperar as condições de vida e também de saúde mental”, observa a psicóloga

Assim, mesmo quando estivermos em uma situação considerada estável em relação ao número de casos, ainda é preciso ter consciência antes de ir a um ambiente de aglomeração. O especialista Mike Akama finaliza recomendando que “a forma mais saudável de retornar à nossa vida cotidiana, quando esse momento chegar, é se permitindo no nosso limite e arcando com as nossas escolhas”.

Apuração: Caroline Schneider Lorenzetti e Kelvin Verdum

Redação: Caroline Schneider Lorenzetti

Edição: Mirian Quadros

Checagem da Hora – Agência da Hora – UFSM

 

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