Literature-se – ELAS na literatura

Após um breve período de férias, a coluna LITERATURE-SE volta trazendo as indicações literárias.

Devido à proximidade ao Dia da Mulher (08/03), a indicação de hoje presta homenagem às escritoras femininas e às narrativas que contemplem a importância da figura feminina na sociedade. Dentre as inúmeras obras que poderiam ser escolhidas dentro desse propósito escolhi o romance “A Mulher de Pés Descalços”, da escritora Scholastique Mukasonga.

Mukasonga é uma escritora de origem Tutsi, integrante da comunidade minoritária de Ruanda que em 1994 foi alvo de assassinato em massa, vítima da comunidade Hutu. O genocídio se estendeu por aproximadamente cem dias, deixando em torno de oitocentos mil mortos. É neste cenário que surge o romance que reflete exatamente o contexto do qual emergiu. A temática feminina está amplamente presente nesta narrativa e revela o papel da mulher naquela sociedade que condenava as que eram solteiras e sem filhos, mas que expunha as mães e seus rebentos à morte ainda no ventre e a toda sorte de degradação.

Se por um lado o texto resgata diversas questões culturais daquele povo, os cultivos agrícolas e as formas de sobrevivência em meio à miséria, por outro descreve a brutalidade do genocídio, que utilizava o estupro como estratégia de extermínio em massa através da disseminação da Aids. “Em 1994, o estupro foi uma das armas usadas pelo genocídio. Quase todos os estupradores eram portadores do vírus HIV” (MUKASONGA, 2011, p. 153), no entanto, foi “nos filhos nascidos do estupro que essas mulheres encontraram uma fonte viva de coragem e a força para sobreviver e desafiar o projeto dos seus assassinos. Ruanda de hoje é o país das Mães-coragem” (MUKASONGA, 2011, p. 154).

Impossível deixar de pensar no quanto ainda a mulher é vulnerável em sociedades machistas. Os pés das mulheres de Ruanda andavam sempre descalços, expostos a toda espécie de mutilação, ferida e machucados, exatamente como aquele povo. As lesões nos pés das mulheres tutsis são simbólicas em relação aos traumas pelos quais passaram. Os danos não estão apenas nos pés, mas nos corações dos poucos que conseguiram escapar ou que sobreviveram ao massacre, e que continuam chorando seus mortos.

A obra indicada é, em si, representante da literatura de resistência, pois assegura a existência do registro de um povo quase inteiramente dizimado pela guerra, em que as mulheres foram bravas, corajosas e fortes ao mesmo tempo em que foram as maiores vítimas do massacre, já que foram elas que sofreram as maiores atrocidades.

Por: Professora Viviane Debortoli

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