Literature-se: A responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam


Por Prof Viviane Debortolli

Embora o clima de Natal e Ano Novo seja de renovação, a sociedade vem passando por momentos que levam a pensar na crueldade de que o ser humano é capaz. Pensando nisso, a indicação literária desta semana põe em evidência a necessidade de reconhecimento de que a espécie humana ainda tem muito a evoluir. Trata-se de Ensaio Sobre a Cegueira, do escritor português José Saramago, publicado em 1995 e que lhe rendeu, em 1998, o Prêmio Nobel de Literatura, e que o tornou o primeiro escritor em língua portuguesa a receber esse prêmio.

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Um homem parado no semáforo é atingido repentinamente por uma cegueira branca, a qual em pouco tempo se torna uma epidemia. As pessoas que ficam cegas são levadas a um sanatório na tentativa de conter o contágio, só que a cidade toda padece do mesmo mal e faz com que a sociedade afetada prove o extremo do desespero e da luta pela sobrevivência. Dolorosa do início ao fim, sentimentos como desprezo e impotência perpassam toda a narrativa, que não apresenta nomes aos personagens numa evidente alegoria sobre a condição humana contemporânea em que as pessoas perderam sua individualidade, estão deixando de lado sua humanidade. 

Em meio à comunidade de cegos, há apenas uma mulher que vê e é através do olhar desta personagem que é possível ter acesso a toda a degradação do ser humano, numa situação em que a raça humana se aproxima muito de seu estado inicial, agindo apenas por instinto, onde as leis já não têm valor.

Levado ao cinema posteriormente, Ensaio Sobre a Cegueira é uma obra indispensável para quem aprecia textos profundos, que tratem sobre a vida, sobre o ser humano, e principalmente sobre a necessidade de perceber que algo precisa urgentemente ser feito para não chegarmos de vez à barbárie total.

 “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem. Cegos que vendo, não veem”.

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.” – Ensaio Sobre a Cegueira.

Post Author: Portela Online