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Entrelinhas: No caos, as lágrimas falam…

 

Crying young woman

“Hoje minha professora entrou chorando na sala de aula”, essa foi a frase que ouvi do meu filho ao chegar da escola. “Ela disse que não tem dinheiro nem pra pagar o deslocamento de sua cidade até aqui, pra trabalhar” continuou ele me explicando…

Conversei com ele por um tempo, tentando fazê-lo refletir sobre o quão grave era o motivo daquele choro. Procurei fazer ver que nas lágrimas da professora, mil interpretações caberiam: um pedido de socorro, um grito de basta, uma súplica de compreensão, um desejo desesperado de ter esperança de novo…

Há décadas não se vive um mar de rosas na carreira de professor, mas se existe o fundo do poço é onde estamos hoje. Em alguns estados até cesta básica distribuíram aos docentes sem salário há meses. Noutros greves e lutas incansáveis para conquistar migalhas de justas reivindicações.

Aqui no Rio Grande do Sul a situação é gravíssima e se estende já por anos ininterruptos de descaso e desrespeito, começando pelo descumprimento da lei do piso nacional e pior, ausência total de reposição das perdas salariais por anos, extinção total de incentivos à carreira como promoções, não pagamento do décimo terceiro salário do ano passado (que depois foi parcelado em doze vezes) e por fim agora, já há mais de ano, o parcelamento dos vencimentos mensais. Isso sem falar no corte das verbas para as escolas, enxugamento de pessoal, fechamento de setores importantes nos educandários, demissões, descumprimento do plano nacional de educação tão divulgado na mídia e cheio de metas e prazos que viraram fumaça.

Chegamos ao ridículo de receber 350 reais nesse mês, até agora, inclusive descumprindo-se liminares judiciais que obrigariam o pagamento em dia.

Calamidade infame o ponto em que chegamos. Professores, policiais e tantos outros profissionais tendo seu direito tolhido pela desculpa da crise financeira. Aliás, numa empresa em crise é comum que se demitam os funcionários com mais altos salários para equilibrar as finanças e salvar o negócio. No estado se opta em sacrificar o maior número possível de trabalhadores, preservando os vencimentos gorduchos dos políticos, administradores e “aliados”. Ou será que eles também receberam os mesmos 350? E se fosse o caso, não mudaria muito suas vidas, afinal não pagam alugueis, transporte e tantas outras contas que pagamos.

Então, senhores administradores das contas públicas, pelo amor de Deus! Usem seus cérebros e seus cargos privilegiados e encontrem saídas diferentes para esse caos em que nos meteram sem pedir nossa opinião.

A sociedade não merece que a educação, a saúde e a segurança entrem em colapso, afinal são elas o alicerce que sustenta a harmonia e o crescimento de um sistema. E se a base ruir, tudo acima dela desmoronará.

Não se trata de “salve-se quem puder”, mas de salvar, enquanto ainda puderem a dignidade e a esperança de todos aqueles que diariamente prestam seus preciosos serviços diretamente à população.

Quem dera voltasse o tempo em que chorar numa sala de aula era por motivo de emoção e alegria pelas conquistas alcançadas na labuta diária.

Hoje, dia da Pátria, atualmente mais envergonhada do que amada, muitos desses profissionais desfilarão em suas cidades, numa demonstração de civismo e cumprimento do dever. Sigam vosso exemplo, governantes e cumpram também o seu dever. E se precisarem de motivação para fazê-lo, vislumbrem no semblante desses trabalhadores a dor que seus atos e decisões têm causado, pois não estarão lá para comemorar a independência do Brasil, mas para provar que responsabilidade não é opcional, pra ninguém.

Por Marlene Serilei Staub

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