Entrelinhas – Ambiguidades: Por Marlene Staub

 

De acordo com a língua portuguesa, as palavras direito e dever são antônimas, ou seja, contrárias em seus sentidos. A primeira define o que se pode e a segunda, o que se deve fazer dentro de preceitos já organizados e estabelecidos.

Partindo dessa reflexão algumas realidades provocam dúvida em seu contexto. Por exemplo, o acesso à Educação. É um direito estudar, mas também é um dever. E se é um dever e precisa ser cumprido, faz parecer que o direito fica abstido, privado do livre arbítrio, pois, nesse exemplo específico, ninguém pode “escolher não estudar” porque foi instituído que estudar é bom e necessário a todos, pelo menos antes da maioridade.

Polemizando, poder-se-ia dizer que o dever, em alguns casos, poda o direito. Isso fica muito claro em salas de aula onde jovens adolescentes estão inseridos por “obrigação”. Não desejam estar lá e para deixar isso bem claro desafiam com audácia cada vez maior as regras (deveres), bem como as pessoas que testemunham seu desprazer (professores, colegas, funcionários,…).

Assim, consequência pior dessa situação é o impedimento do efetivo direito dos outros estudantes, os poucos que estão ali não apenas pela vontade da família, mas pela sua própria em função do desejo de conquistas futuras em suas vidas. Os que ainda acreditam que estudar vale a pena e lhes agrega valor.

Alguns críticos da educação diriam que é possível reverter essa postura de jovens indóceis, recriando métodos, repensando práticas, ressignificando a escola. Entretanto, testemunham-se casos impossíveis. E nesses fica a pergunta: por que não deixá-los fora da escola? Por que não lhes permitir experimentar a vida sem ela? Por que não constituir efetivamente o direito dos outros que lá querem estar, crescer e se desenvolver num ambiente mais harmonioso e equilibrado?

Talvez seja momento de se dizer basta ao desperdício de tempo e energia dos docentes e administradores de escola, quando várias medidas tomadas não surtem efeito. Quando a família se mostra alheia e se abstém de interferir positivamente, quando entidades e comissões esgotaram suas soluções inférteis. Libertem-nos! Para que os demais também sejam livres para aprender como merecem. E que os mestres sejam igualmente livres para poder focar em aprendizagem ao invés de empenharem seu tempo de sala de aula numa disciplinação descabida daqueles que só querem medir forças com os que lhe impõem limites (às vezes pela primeira vez na vida).

Aliás, a vida também ensina. Foi assim por gerações. A vida impondo ensinamentos em seu cotidiano por vieses diversos, ora das dificuldades, ora dos sucessos. Talvez seja preciso apostar na vida e deixar a escola para quem a valoriza. Pois não há o que compense a humilhação, o desacato, a injúria, nem tampouco o desgaste emocional de todos, alunos e professores, que tem que conviver com a complexidade de tais problemas numa sala de aula.

Quiçá um dia o “liberto” rebelde tire por conta própria suas vendas da ignorância e busque em outro tempo e até em outro espaço os ensinamentos que lhe fizerem falta. Inclusive os de caráter. É seu direito experimentar um caminho diferente, mas é seu dever não impedir que os demais possam também seguir o seu, nas salas de aula.
Gestores trabalham com números, índices. Entretanto esses valores não dizem tudo que precisa ser dito. Reduzir a evasão escolar ou ampliar o acesso à escola não são questões isoladas quando se trata de qualificar a educação.


Por Marlene Staub – Especial Portela Online

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