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Entrelinhas: Carreira profissional, ponto final – Por Marlene Staub

Completei neste mês de março três décadas de serviços prestados à rede pública de ensino: quatro anos na rede municipal e outros vinte e seis na rede estadual.

Se tivesse que dizer quantas crianças, jovens e adultos cruzaram meu caminho nas salas de aula, não saberia estimar com precisão, mas com certeza foram milhares. E se fosse para contar as experiências mais incríveis que eu lembro desse tempo todo, seriam tantas que não teriam fim. Alegres, surpreendentes, difíceis, decepcionantes, únicas e inacreditáveis até.

Se eu quero me aposentar? Claro. Como todo trabalhador deseja. Se eu quero parar de lecionar agora? Não, mas vou. Por quê? Fácil responder: porque não sinto nenhuma segurança quanto às novas regras impostas pela reforma da previdência que, embora ainda em discussão, já tiram o sono de milhões de brasileiros.

Poderia chamar minha decisão de “efeito colateral” da reforma, no qual eu e muitos outros professores, e também outros profissionais, iremos nos inserir. Isso porque, embora ainda com muita disposição para o trabalho, não queremos correr o risco da imposição de ampliar em uma década e meia nossa trajetória profissional (ou mais).

Um dos motivos da insegurança é a questão da saúde física e mental para permanecer, ainda tantos anos na função que escolhemos, pois os desafios crescem aceleradamente nas escolas.  Outro é a falta total de expectativa por uma remuneração mais justa, bem como o enxugamento que a máquina do estado vem promovendo nas escolas: lotação máxima nas turmas, carga horária injusta com as necessidades de planejamento do professor, setores importantes como biblioteca e laboratórios sem recursos humanos, ameaça de corte em vantagens que estimulavam a busca de concursos e inserção no plano de carreira, entre outros. Uma vez que preenchemos os requisitos atuais para a aposentadoria, não há motivação para esperar mais.

Deixo para trás uma vida dedicada à educação, temendo pelo futuro das escolas, cujo presente já é tão conturbado, tão cheio de necessidades. E levo comigo uma bagagem rica de vivências que são o verdadeiro tesouro do magistério.

Se eu ensinei muito, aprendi muito mais… Aprendi que às vezes o mais importante na escola, para algumas crianças, é sim a merenda escolar… Que para outras tantas o mais importante é estar perto de outras crianças, dos professores, de quem lhes dá atenção… Aprendi que quando o jovem diz “Odeio a escola” ele geralmente só está repetindo um jargão (afinal, jovem que diz gostar da escola está fora da moda)… Mas aprendi que alguns odeiam de verdade e que só estão lá porque existe uma lei que os obriga; que queriam estar trabalhando, ganhando dinheiro, escolhendo seus sonhos, e estes são os que mais judiam dos professores, pois nos veem como seus carrascos… Aprendi que cada um tem seu tempo e seu jeito de aprender e que a paciência, a compreensão e o estímulo nunca podem faltar… Aprendi que em certos momentos se ensina muito pouco de conceitos e conteúdos, mas se ensina muito de viver e conviver, de afeto e amizade, de respeito e caráter… Aprendi que a motivação é própria de cada aluno, mas que descobrir o que pode motivá-lo é o grande e difícil segredo… Aprendi que não há limites para o aluno que deseja aprender e esses tornam por vezes bem mais leve e prazerosa a nossa jornada… Aprendi que a aula pode acontecer em qualquer espaço e que as regras são sempre discutíveis… Aprendi que muitas vezes é preciso ouvir mais do que falar e observar para entender… Aprendi que as famílias, embora devessem, nem sempre representam o porto seguro dos filhos… Aprendi que ser professor não é pra quem pode, mas para quem quer, de verdade!

Eu quis. Escolhi essa profissão pela admiração precoce que ela me despertou, desde as primeiras vezes que sentei nos bancos escolares para ouvir aquele adulto, lá na frente da sala, que sabia decifrar os livros, que escrevia um elogio no meu caderno ou mesmo um simples certo de caneta na tarefa concluída corretamente.

Fui chamada de “profe”, de “pro”, também às vezes de tia, mãe ou vó, por engano, tão próximos nós tornávamos no dia a dia, quase parentes de verdade.

Se eu fui desrespeitada por alguns (o que é comum na nossa profissão), também fui elogiada, abraçada, homenageada, amada… E assim quero encerrar, compartilhando dois cartões que recebi de despedida. Duas situações bem distintas, ambas crianças em torno de dez anos de idade, os quais exemplificam as diferenças com que convivemos e o legado que deixamos. Um deles engatinhando na leitura e escrita, consegue expressar com palavras simples (embora de grafia incorreta) o valor desse aprendizado em sua vida (vida essa cheia de experiências absurdas para uma criança). O segundo expressando uma capacidade incrível de contextualizar sua gratidão, tanto no desenho quanto na frase que usou. Tenho orgulho imenso dos dois (e de todos os outros), pois em seus tempos e com suas vivências estão se desenvolvendo cada vez mais no espaço cotidiano da escola.

Foi bom enquanto durou e sentirei muitas saudades, com certeza! Boa sorte e sucesso aos que prosseguem e que continuem ajudando a florescer o recurso mais importante do planeta: as crianças!

 

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